-->

14 janeiro, 2007

Quando Eu Morrer

Usufruindo das soberbas capacidades técnicas do Estúdio Raposa e da mestria e sapiência como produtor do Luiz Gaspar, gravei a minha declamação deste poema. Ouça-a aqui, enquanto o lê: Quando Eu Morrer


Quando eu morrer...

Morre o filósofo e o poeta,
morre o homem da caneta.

Morre o jovem e o idoso,
morre o pensante perigoso.

Morre o músico vacilante,
morre o nobre viajante.

Morre o intrépido cavaleiro,
morre o tímido prisioneiro.

Morre o charmoso galã,
morre o menino da mamã.

Morre o monstro condenado,
morre o mestre iluminado.

Morre um corpo que figura
esta Alma que perdura!

Morte!

A metáfora suprema,
a mudança de cena.

A destruição da evidência,
a afirmação da existência.

A sensação de liberdade,
a desilusão da saudade.

A podridão da biologia,
o alimento da maioria.

A promoção do lamento,
a suspensão do sofrimento,

O elemento indiferente,
o momento convergente!

Por isso,
quando eu morrer...

cantem Bécaud!
Inundem-se com a canção que vos dou
cheios da vida que vos compete:

"Quand Il est mort le poéte..."


Rui Diniz

11 Comments:

Blogger as velas ardem ate ao fim disse...

E aqui estou eu novamente a oferecer te algo, do puco que tenho, uma musica de um home maravilhoso Leo Ferre, porque ao ler te e ouvir te deu me uma imensa vontade de ouvir esta musica...

Avec le temps
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
On oublie le visage et l'on oublie la voix
Le coeur quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller

Chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très
bien
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
L'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie
L'autre qu'on devinait au détour d'un regard
Entre les mots, entre les lignes et sous le fard
D'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
Avec le temps tout s'évanouit
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
Mêm' les plus chouett's souv'nirs ça t'a un' de ces
gueules
A la Gal'rie j'Farfouille dans les rayons d'la mort
Le samedi soir quand la tendresse s'en va tout' seule

Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
L'autre à qui l'on croyait, pour un rhume, pour un
rien
L'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
Pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
Devant quoi l'on s'trainait comme trainent les chiens

Avec le temps, va, tout va bien
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
On oublie les passions et l'on oublie les voix
Qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
Ne rentre pas trop tard, surtout ne prend pas froid
Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
Et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
Et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
Et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
Et l'on se sent floué par les années perdues
Alors vraiment
Avec le temps on n'aime plus.

Bjos da Vela

janeiro 14, 2007 10:41 da tarde  
Blogger Rui Diniz disse...

Vela: Muito Obrigado pela prenda. É pena que eu não conheça a canção e, devo confessar, o meu francês é básico :-P

Ainda assim tentarei traduzir o possivel e entender o poema por trás dessa canção que me ofereces. :-)

janeiro 15, 2007 9:35 da manhã  
Blogger Isabel disse...

Quando morreres cantarei .
Se já tiver morta desafiarei a morte como fiz com a vida para vir cantar para ti...

Desafiarei a vida ou a morte cada vez que morra um pote para cantar para ele.

Nem a vida nem a morte me retirarão nunca a liberdade de cantar aos poetas...

Cantar ao poeta é cantar ao anti Deus... é rezar ás palavras e a quem as diz... livremente aprisionado apenas na sua própria dor.

Quando morreres cantarei...
E ao cantar estarei a chamar-te poeta.
Que melhor elogio funebre?

Deixo-te um poema que não sei porquê me lembrei ao ler-te.

Cântico

Que o Cântico seja ouvido...
Os murmúrios de amor exaltados!
O desejo não pode ser detido
Nem a palavra, contida
Tampouco a inspiração vendida
Nas páginas internéticas de um micro.
Que o Cântico seja interpretado...
Que o vinho, frente a ti, seja insípido
E o sorriso franco, não vetado.
A mais bela flor não pode ser cortada
Nem Madalena, apedrejada
Por não ser hipócrita nem pelo passado.
Que o Cântico seja vivido...
Que ninguém o julgue sem sentido.
Que a busca seja constante e inevitável.
Que minha palavra desnude o sigilo
De tudo, por mim, desejado.
Que o Cântico seja lido e catequizado.

Virgínia Carvalho

Até breve.

Isabel

janeiro 18, 2007 7:05 da tarde  
Blogger Rui Diniz disse...

Isabel:
Não te conseguirei explicar em palavras (eu que pareço cheio delas, não é?) o que sinto pelo que me escreveste...

Senti no teu comentário que podias perfeitamente ter sido tu a escrever este poema, assim tivesses chegado mais cedo onde quer que eu tenha estado quando o escrevi.
Pode não ser verdade, mas assim te senti.

Isabel,
passamos por tantas mortes nesta vida
que espero encontrar-te numa delas;
cantando e escrevendo,
escrevendo e sorrindo,
sorrindo e chorando ->
explodindo!...

Explodindo num "Big Bang!",
como os artistas de sangue,
aqueles que por acidente perverso
iniciam um universo.

Somos anti-Deuses, sim!
Porque para nós não sobra nada!
E nós queremos assim,
preferimos vida libertada!

Agradeço-te, Isabel, as palavras...
com que me encheste os olhos de reflexos,
os transformaste em espelhos salgados e convexos,
com que me mostraste de novo o sentido
que sempre soube haver em mim...
para escrever:

"Não sou nada,
nunca serei nada,
não posso querer ser nada,
à parte disso tenho em mim todos os sonhos do mundo..."
- Àlvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Com emoção,
Rui Diniz

janeiro 18, 2007 7:48 da tarde  
Blogger Isabel disse...

Bem hajas.

Por escreveres, por escreveres como escreves.

Porque é preciso soltar as palavras

é preciso quem o faça

é preciso dizer o que tem de ser dito

é preciso ser, ser e ser o que se é verdadeiramente.

Ser

E escrever o que se é
o que se quer
o que se acredita

escrever pelo que se está disposto
a lutar
pelo que nos faz viver
pelo que estamos dispostos a morrer

Bem ajas pelo que escreveste lá no meu local.

Onde começo de novo cada vez que escrevo
a minha estação de serviço

Bem hajas pelas palavras que lá deixaste...

até breve

Isabel

janeiro 19, 2007 11:48 da manhã  
Blogger Rui Diniz disse...

... :-) ...

Espero que as minhas palavras lá se transformem no prefácio do teu livro...

Diniz

janeiro 19, 2007 12:17 da tarde  
Blogger veritas disse...

Gostei da magia deste cantinho...quando morrer o poeta...morrem os hinos da vida...será que existe poesia na morte?

Voltarei.

janeiro 19, 2007 3:50 da tarde  
Blogger Rui Diniz disse...

A morte é a meu ver apeas parte da vida. Morremos enquanto vivos tantas vezes que já nem ligamos. Por norma é nessas mortes que a poesia acontece.

Como quem começa de novo por exemplo! ;-)

Fico feliz que tenhas gostado deste espaço. Volta sempre :-)

janeiro 19, 2007 5:09 da tarde  
Blogger Chama Violeta disse...

Procura-se um amigo/a...

Não precisa ser homem,mulher:
basta ser humano, basta ter sentimentos,
basta ter coração.

Precisa-se de um amigo/a que diga
que vale a pena viver,
não porque a vida é bela,
mas porque já se tem um amigo.

Bom final de semana!!!!

janeiro 19, 2007 11:24 da tarde  
Blogger Menina_marota disse...

"Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar."


(Poema de Vitorino Nemésio)

... do que me fui lembrar! Mas é um poema que me diz muito e resolvi deixar-te aqui, com um abraço de VIDA, que tens ainda tanto para Viver!

;)

janeiro 22, 2007 11:47 da manhã  
Blogger Rui Diniz disse...

Muito agradecido estou, Marota! Que poema espantoso!

:-D

janeiro 22, 2007 11:52 da manhã  

Enviar um comentário

Atalhos para este post:

Criar uma hiperligação

<< Home