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08 janeiro, 2007

Sinto-me Só

Sinto-me só,
como quaisquer magos;
Como qualquer Rei com um só olho
num mundo de cegos;
E só me sinto,
mesmo não estando na verdade;
mas não se escuta o som das vozes
que deviam encher as plateias
do re-despertar da Humanidade!
Sim! Onde está o calor das gnoses
que nos podiam aquecer ideias
ante a glaciação da realidade?

Que passos demos nós,
em prol da consciência,
se essa consciência a que pertencemos
só nos dá a noção da força que não temos?
E sinto-me só! Sinto-me só e com frio!
Sinto os meus pensamentos congelar no hipnotismo
de uma existência na nossa mente forçada,
e dominada, no materialismo!
Seres poderosos feitos tão fracos,
transformados de transparentes em opacos
com apenas uns anos no delírio
de serem trapos!

Que mortes vos esperam mentes inúteis?
Talvez tão inúteis como a minha,
talvez ainda mais fúteis;
se adoradores da Rainha.
Sinto-me só convosco, meus amores,
que vos amo a todos ainda
e aí sim, como nos programas,
talvez para sempre o sinta.
Assim é, não sei mais como vos diga;
sinto-me só;
aprisionado entre a fadiga
e o nó!

Peço-vos,
aos que despertam no perigo,
vençam os medos!
Peguem nas fundas!...

E partilhem comigo:
segredos
e perguntas!...


Rui Diniz

6 Comments:

Blogger Isabel disse...

Estamos cá para isso meu amigo.

Para partilhar segredos e perguntas.

Estamos cá para despertar.
Para vencer os medos.
Para pegar nas fundas.

Estamos cá para destuir e para construir de novo, vezes e vezes sem conta.

Estamos cá para matar a rainha ignorando-a.

Estamos cá para arranjar força.

Estamos cá para pensar sós e juntos.

Estamos cá para nos sentirmos sós como tu.

E assim mesmo partilhar.
Partilhar.

despertar
despertar

lutar

quem sabe

no meio da luta

olhares se cruzem e percebamos que estamos menos sós.

é apenas uma possibilidade.

despertemos de qualquer forma.

Que nada se mova para combater a solidão

Mova para mover
desperte par despertar simplesmente.

Até já

Isabel

janeiro 10, 2007 6:42 da tarde  
Blogger as velas ardem ate ao fim disse...

Espero que não te importes que te ofereça, esta musica que adoro, e que para mim é minha por seu uma solitaria:

Minha senhora da solidão
Minha senhora das dores
Quanto tempo falta para te ver sorrir
Quantas misérias ainda vais exibir
Quanto tempo mais vou ter de te ouvir queixar?

Minha senhora da solidão
Vê como o sol brilha hoje
Odeio ver-te de luto
Gostava de ver o teu olhar enxuto
De descobrir alguma graça no teu andar

O teu crucifixo não me ilumina
O teu sacrificio não me pode fazer bem
Não é bom para ninguém
Hum, não ajudas ninguém...

Minha senhora da solidão
Minha senhora dos prantos
Tens um "ai" encravado na boca
Que dia após dia te sufoca
Precisas muito mais que uma simples oração

Minha senhora da solidão
Minha senhora das culpas
Tenho que evitar o teu contágio
Não quero saber mais do teu naufrágio
A praia teve sempre ao alcance da tua mão

O teu crucifixo não me ilumina
O teu sacrifício não me pode fazer bem
Não é bom para ninguém
Hum, não ajudas ninguém...(Jorge Palma - Minha Senhora Da Solidão
)

quanto ao teu comentario no Velas acho que tens razão mas não consigo deixar de ser ingenua e continuar a alertar consciencias e mudar o mundo, quando achar que não vale de nada prefiro morrer.


bjocas

janeiro 13, 2007 1:02 da manhã  
Blogger Menina_marota disse...

Ao ler-te não sei porque me fui lembrar de um poema que muito me diz... do grande Vinicius de Moraes.

Deixo-o aqui com um grande abraço ;)


"Operário em construção"

"Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento

Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construcão.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma subita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Nao sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua propria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele nao cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Excercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edificio em construção
Que sempre dizia "sim"
Começou a dizer "não"
E aprendeu a notar coisas
A que nao dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução

Como era de se esperar
As bocas da delação
Comecaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
- "Convençam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.

Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edificio em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Nao vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martirios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construido
O operário em construção"

(Poema de Vinicius de Moraes)

Bj

janeiro 13, 2007 5:20 da tarde  
Blogger as velas ardem ate ao fim disse...

Sofro de solidao.Não me custa dize-lo.custa me e lidar com ela todos os dias.

Voltei para te ofereçer uma prensa dada por uma amiga a Maça de Junho:

Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... Isto é carência!

Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... Isto é saudade!

Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes para realinhar os pensamentos... Isto é equilíbrio!

Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente... Isto é um princípio da natureza!

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é circunstância!

Solidão é muito mais do que isto...

SOLIDÃO é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma."(V.MORAES)

janeiro 14, 2007 12:40 da manhã  
Blogger Rui Diniz disse...

Marota: Que maravilha esse poema! Muito obrigado! :-)

Velas: Ah, Velas, também conheces a Maça de Junho? É minha amiga também. :-) Vinicius de Moraes nunca é demais!

Agradeço a vossa partilha :-)

janeiro 14, 2007 9:34 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

Incrível como este texto consegue me definir neste momento...

Parabéns pela arte de escrever.

janeiro 14, 2007 12:39 da tarde  

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