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25 julho, 2012

Descegados

Na névoa da noite escura,
a chuva bate o chão que piso.
A irmandade das coisas fúteis
estará por esta hora condensada em algo
mais efémero que a própria vida.
O que é não sei,
mas talvez seja um chicote novo!
É que ao invés de cá passar uns anos
jogando às cartas e aprendendo truques,
estes frades ascetas deliciam-se
com o látego colorido,
embebedado e benzido,
que lhes lacera as costas
do cérebro.
Os ruídos racham-lhes os ouvidos
e as investidas estalam-lhes a pele,
mas ainda assim riem
quando passo à frente dos seus abrigos.

À minha frente,
por entre os canteiros
de flores pintadas que evito pisar,
um cheiro a podre assinala-se
sem convite:
é a morte feita plástico.
A química luxúria de Deus.
A beleza rasgada
que tresanda a merda
retocada com tinta.
É a nova re-génese reordenada
deste ser desumano e divino,
de raiz olvidada,
de vontades perecidas,
de morte anunciada,
de espirais remexidas,
de sangue impuro,
de escravas vidas,
de ferro duro
espetando-lhe as feridas!
Esfrego o cheiro para fora do nariz
e prossigo,
confiante
que esta peste se alquimize!

Reforço o passo;
na direcção contrária
à corrente do vento comum
- sempre com a chuva batendo o meu caminho
e esta noite que me ilude
e me revela sozinho...
A noite é muito antiga!
Matreira e convencida!
Segura de que seu véu esconderia
a multidão dos descegados
que a vêem dia...
e eu que vos falo da noite
e desta chuva agreste
que me gela a cara!...
mas no meu âmago,
um sol inteiro já brilha;
uma luz que atrai as traças
e até mesmo alguns cegos
de asas lassas...

Ah! Minha Terra, meu poiso, minha mãe!
Meu colo molhado pelas lágrimas
que choras há milénios:
Nós os vivos, amamos-te...
e apenas isso irá bastar:
para derrubar impérios
e te salvar!


Rui Diniz (2007)

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