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07 julho, 2016

Separar do Ser o sonho

Melhor e mais depressa sai
aquele que não tem pressa de sair;
Que goza cada fruto sumarento,
cada folha verde,
cada arrepio na pele
- que chora cada lágrima no interior
do seu próprio salgado rio.
Aquele que sabe também, porém,
que o fim das coisas não são elas próprias,
nem tão pouco sua tangível vivência.
Em todas as coisas
pelas quais passa a vida,
sempre há um pouco da Vida que deixa de o ser
- e o Ser que o É, Sábio, Ele sabe-o.

Ele é o mais adulto entre as crianças
e dos adultos o mais infantil.
Ele sabe que cada gesto seu
tem o grilho da escuridão
de que as coisas são feitas.
Sabe que em cada inspiração,
engole o perfume da sombra.

É que a verdadeira Luz não é
aquela que o olho-vivo do Sol
nos traz todas as manhãs,
em que maquinalmente aparece.
Essa Verdade habita na Memória,
que os sabores e dissabores do mundo
desejam manter na eternidade Caída.
Ela, Luz, só ressurge, pura,
quando por fim, findo o sonho,
cortada a esperança,
se desprende a vontade
do Guião que nos segura.

Então aí, tudo o que é coisa, sem pressas,
vai findando à volta, serenamente,
enquanto o feijoreiro cresce, qual escada,
que um dia um Relâmpago há-de iluminar
e separar
do Ser
o sonho.


Rui Diniz

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