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07 julho, 2016

Separar do Ser o sonho

Melhor e mais depressa sai
aquele que não tem pressa de sair;
Que goza cada fruto sumarento,
cada folha verde,
cada arrepio na pele
- que chora cada lágrima no interior
do seu próprio salgado rio.
Aquele que sabe também, porém,
que o fim das coisas não são elas próprias,
nem tão pouco sua tangível vivência.
Em todas as coisas
pelas quais passa a vida,
sempre há um pouco da Vida que deixa de o ser
- e o Ser que o É, Sábio, Ele sabe-o.

Ele é o mais adulto entre as crianças
e dos adultos o mais infantil.
Ele sabe que cada gesto seu
tem o grilho da escuridão
de que as coisas são feitas.
Sabe que em cada inspiração,
engole o perfume da sombra.

É que a verdadeira Luz não é
aquela que o olho-vivo do Sol
nos traz todas as manhãs,
em que maquinalmente aparece.
Essa Verdade habita na Memória,
que os sabores e dissabores do mundo
desejam manter na eternidade Caída.
Ela, Luz, só ressurge, pura,
quando por fim, findo o sonho,
cortada a esperança,
se desprende a vontade
do Guião que nos segura.

Então aí, tudo o que é coisa, sem pressas,
vai findando à volta, serenamente,
enquanto o feijoreiro cresce, qual escada,
que um dia um Relâmpago há-de iluminar
e separar
do Ser
o sonho.


Rui Diniz

20 agosto, 2014

Um céu sobre a minha cabeça

Quando eu nasci, havia um céu sobre a minha cabeça.
Diziam-me que havia também um horizonte, mas eu olhava pela janela
e acenavam-me paredes sujas que tudo tapavam.
Apesar de tudo, havia um horizonte que me esperava. Assim me dizias.
Cresci por entre as miudezas de uma solidão latente, escondida até de mim mesmo.
Não tive falta de gente - tive falta de mim.
Talvez o meu corpo tenha nascido vago e, fazendo uso disso,
uma colónia de sonhos nele encontraram guarida.
Indigno!

Fui me perdendo na passagem dos anos em que sonhava voar
por aquele céu que havia sobre a minha cabeça,
mas nos quais, ao invés disso, caminhava rumo ao horizonte que dizias me esperar.
Fazia-o sorrindo, mãe, fazia-o para não te desapontar.
Não suportava a ideia de comigo te desiludires! Ora essa!
Poderia eu, que nascera para alcançar o horizonte que tu sempre desejaste,
fazer o desplante de nem sequer sorrir enquanto andava para o teu calvário?
Não! Não podia fazê-lo! Com que direito? Eu que nem vivia?
Pois se vivia aqui neste corpo alguém, eu não era. Quem seria?
Um ovo posto por um desses sonhos que nem meus eram?
Como poderia ser meu tal sonho, se eu nem existia sequer?
Eu só queria conhecer o céu que havia sobre a minha cabeça!
Indigno!

Sempre ninguém fui e só agora o reconheço, mãe. Ao fazê-lo, contradigo-o,
pois ninguém pode reconhecer ser alguém e continuar-se ninguém! Não é?
É essa a contradição que me raptou para longe de ti! Oh minha mãe... não o vês?
Não tens tu qualquer mínima clareza no teu espírito para ver,
com os mesmos olhos que me souberam banhar na fé cega
desse horizonte tapado por paredes encardidas,
que foi para ser alguém que te fugi dos braços?
Foi um cadáver que tu alimentaste com as tuas delícias!
Um corpo desalmado pela cega fé que me deste!
Eu pertencia ao céu que havia sobre a minha cabeça, mas a tua fé era exclusiva.
Exclusiva e soberana.
Indigno!

Porque andava eu, afinal, se sem vontade, sem vida, sem voz?!
Esforçava-me a cada passo, só para me apaziguar nos teus braços e nos teus lábios rindo,
mas eu nem andar sabia com as asas com que nasci!
Olha que o horizonte dos teus sonhos, que com tanto carinho me preparaste,
não aceita convívio! Ele constroi mártires, mãe, mártires como tu!
Mártires como ele. Ele sim, aquele que tu amas mais que todos,
por ser a fiel cópia dos sonhos que nunca viveste.
Ele é mártir pois não sabe que caminha também por ti. Que te leva a cada passo.

O sucesso dele é o teu, contrafeito. A sua falsa vitória, o meu defeito.
Indigno!

E tu insistias que o horizonte estaria lá, esperando-me, se caminhasse;
eu que nem sequer pernas tinha! Oh mãe! Que falsa ideia essa!
Parece que tinhas pressa em passar-me a maldição, como a ti fizeram!
Sem querer! Eu sei que foi sem querer. Pois se te posso amenizar a consciência,
faço-o dizendo-te que fizeste como melhor sabias... mas sabias tão pouco, minha mãe!
Sabias apenas da tortura abafada pelos sonhos dos outros na vida que te deram.
Eu sei, minha mãe! Por sabê-lo sei que és mártir!... Mas sabias tão pouco!
E eu, que cada vez que olhava para cima
- mesmo com tecto, com nuvens, com a escuridão toda do teu semblante carregado,
desaprovando-me o olhar - via o céu que havia sobre a minha cabeça...
Indigno!

...

Agora estou longe, já não vejo ninguém, já não vejo nada.
Até o horizonte, esse tal que nunca fora meu, desapareceu de todo da minha imaginação.
Não sei sequer se tenho força nas asas para partir à procura do céu que havia sobre a minha cabeça.
Tudo à minha volta está opaco. O sono toma conta de mim.
Uma amargura enorme ocupa agora o espaço onde podia ter existido eu.
As forças faltam-me. Os sonhos partiram-se antes de eclodir.
Oh mãe! Pudesses tu ver com os meus olhos!
Pudesse eu ter-me escapado ileso dos teus braços,
pudesse o teu olhar me ter deixado existir.

Rui Diniz

06 outubro, 2012

InVersos

A poesia tem nova vida.

Versos saltam do papel gasto e lançam-se à aventura.
Diversos, Controversos, Dispersos, Interpretados:


(Este projecto destina-se somente à divulgação de todos os artistas envolvidos.)

08 setembro, 2012

InVersos - Edição Experimental


Aqui está a Edição Experimental do InVersos.
Poemas:

"Anjo És" de Almeida Garrett
"Eterno Branco: Poema 1" e "Eterno Branco: Poema 2" de Veruska
"Poema pouco original do medo" de Alexandre O'Neill

---

Nota: Os poemas contidos nesta edição foram gravados com qualidade técnica inferior. As edições futuras já contarão com melhor qualidade na captação da voz e na produção sonora.

14 agosto, 2012

Vídeo: Tabacaria de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)


Tabacaria from Rui Diniz on Vimeo.
Vídeo de homenagem ao poema "Tabacaria" de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).


Concebido e Produzido por
Rui Diniz
Miguel Rodeia
João Castilho
Ana Ferreira

Música:
Título: Soledad
Autor: Astor Piazzolla
Intérprete: Gidon Kremer
Album: Hommage A Piazzolla

Declamação:
Luís Gaspar
(www.estudioraposa.com)

01 agosto, 2012

Lvsit'Ana

A tua envolvente natureza pueril
que enche a beleza do espaço esquecido,
vive manchada pela flor seca e rasgada
do amor perdido.
O teu sorriso não é o mesmo desta vez,
Viriato não está contigo... ele morreu.
Roma matou-o e conquistou-te.
O ardil célebre de Saturno roubou o poema ao teu corpo
e rasgou-o com o punhal traiçoeiro, na calada de uma noite.
Desde então tu tens medo dessa noite, tal como da noite de agora.
Nunca mais descansou a tua mente perante a escuridão dessa hora
porque a noite ficou aí marcada de vermelho, salpicada,
e tu permaneceste lá, à sombra dela e desse momento,
sob grades de olhos mareados por ondas de água-dor derramada...
que nunca estancaste.
Tu... tu que amaste,
soubeste que nunca curarias o lamento,
soubeste que nunca serias de novo amada,
compreendeste com uma certeza pétrea que o momento
em que o teu destino se traçou,
foi procurares o teu Rei naquela madrugada.
Os seus olhos não se voltaram a abrir,
tal como os teus não mais secaram.
O luto fechou-se sobre a vontade do teu corpo
e manteve os pensamentos onde as mágoas os fecharam...
Sucumbiste à inalterável realidade à tua frente
diante da qual deste à luz a tua sombra...
A criança sorridente foi perder-se ao bosque amaldiçoado
para que em ti o crime irreversível jamais fosse perdoado!

Então e a fúria?! E o ódio?! E a violência
com que as labaredas então se ergueram do teu ventre,
para consumir o império todo num ápice?!
Juraste vingança bebendo o sangue amado com um cálice!!
Juraste vingança jurando que o sangue derramado seria o deles!!
E aprendeste, no contorcionismo dos espasmos de um único pensamento,
que a tua sede jamais seria saciada!!
Roma violada!! Roma destruída!! Roma queimada!!
Vingança!! - gritaste - Vingança!!
Pois com a morte da Esperança, cujo corpo inerte se quedava no chão,
só te restava a maldição de matar!!
Mate-se o legionário!! E o centurião!!
Derrube-se o império sob a tua mão!!
Foi então que juraste, com todo o teu ser:
lutarás o império, até na luta morrer!...

A morte... incontornável, ela por fim te chegou...
mas da tua existência jamais se apagou a noite,
em cuja madrugada procuraste o Rei, teu amor
e encontraste as vis certezas da morte.
Entende que não há lei para o mais forte.
Roma duplamente venceu,
pois no luto do teu véu de jurada vingança
caíste nos braços secos e frios da mesma sorte
que levou Viriato, que outrora seguia a tua dança.
E hoje, momento em que a paz te podia ter chegado afinal,
tu és Roma, esse inimigo fatal
cujo cruel ardil de Saturno roubou o poema ao teu corpo.
Viriato está morto. Morto e queimado.
E tu afirmas que ele não deixou de ser,
que não é eterno o seu estado...
mas ao teu corpo não voltou a poesia
que só a ele deixavas ler.

Lvsit'Ana, meu amor, mulher brava e bela!
O teu Viriato tantas vezes renasceu.
Mas tu quando o olhas, és como a sentinela
que o seu corpo reconheceu.
Sem te aperceberes,
Roma tomou-te na madrugada,
na primeira
da última vez em que viste o teu amor.
E o império fez então de ti sua soldada
quando Saturno roubou a poesia
à tua mente violada.
Mas a Poesia vive em ti,
na beleza do espaço esquecido
que nunca em ti findou.
Basta que soltes Roma
da madrugada em que te tomou.
Pensas que tua envolvente natureza pueril
nunca terá existido,
manchada que foi pela flor seca e rasgada
do amor perdido.
Mas a fonte do teu brilho de outrora
até mesmo à morte resiste,
pois ela é a qualidade
mais real e intransigente
de tudo
o que em ti existe...


Rui Diniz

26 julho, 2012

Irremediavelmente

Irremediavelmente,
vazio.
Por isso, é tanta a minha criação
sobre este meu universo perceptível
do qual sou centro único, insubstituível.
Como um Monge crio tudo - e de tudo! -
para que tudo tome o lugar essencial da Existência ausente
sobre a qual aplico,
cuidadosamente,
o alcatrão terraplanante.

Fica tudo por igual.
Limpo e reluzente!...
Vazio,
irremediavelmente.

Todas as palavras que alguma vez escrevi
- como estas, que são lidas agora -
e que apresentam consigo a detergência,
desinfecta e certificada pelo vazio parasítico
da excelência,
tiveram sempre a benesse presente
da lama que Existe mesmo,
que sobrevive - subsiste ainda! -
por baixo de todo o peso irreal
não só do que já passou a ser
- por nosso hábito somente! -
mas também do que não é nem será nunca existente.

O hábito faz o Homem.
O Homem faz o Monge.
O Monge faz o peso morto do que não é
por cima da leveza natural do impulso vivo!
O Homem É, o Monge NÃO!
O Homem VIVE, o Monge SONHA!

A diferença no meu passo-a-passo
é que o meu gesto andante não é minha pertença.
Não aspiro ao domínio completo do Universo à minha sentença,
principalmente porque tentá-lo seria perdê-lo inteiramente:
enquanto agora farejo distintamente
o que por baixo dele vive,
tentando,
mataria à percepção
a distinção entre ele
e o que por baixo dele vive.
Esta lama que salpica da poça para o meu passo
quando o meu passo pela poça passa
é, irremediavelmente, a lama sagrada!
Pois ela é que suja o vazio com o que Existe!
Ela é que dá valor à pobreza da passada!
Ela é que tinge a invisibilidade
com todas as cores misturadas,
como quando um pintor não contém as pinceladas!
A lama é que me tem! É ela capaz de alcançar a parte viva de mim!
Porque se enquanto Homem o meu passo pela poça passa,
é porque a poça em si mesma tomou para sua posse o meu passo!
A lama suja-me a passada,
limpando dela a pestilência estéril do Monge alcatroado,
deixando um Homem nu, somente...
vazio ainda...
irremediavelmente.

Hei-de criar tudo
e deitar tudo abaixo no mesmo instante!
Inspiração e Expugnação!
E o vazio há-de ser Homem! E vida!
E as palavras que escreverei serão perante a celebração
de uma Existência em concreto!
Farei então parte de um mundo completo,
antepassado esse
que é para nós um marginal!

Viva o Animal !
Viva o Animal !!
Viva o Animal !!!...
que é Homem subconsciente...

irremediavelmente!

Rui Diniz

25 julho, 2012

Poesia, voltei a ti

Poesia, voltei a ti.
Talvez só por um bocado, para um copito e um acepipe.
Não posso demorar, mas claro que aceito o teu convite.
Que tenho para fazer? Ora, tu sabes, o mesmo do costume...
Não me olhes que me puxas para ti
e eu não tenho já pachorra para o teu queixume!
Vamos, com calma, espera, não me beijes assim!
Se continuas, todos os sonhos regressarão a mim...
E logo eu que tenho tão pouco tempo...
Não, não posso ficar!
Não insistas, já te disse, só tenho um bocadinho...
mas agora que te revejo... como posso seguir caminho?

Voltei, sim, meu amor, mas só por esta noite...
Só para dar uma volta na cama e me esquecer - para recordar uma ilusão.
Envolve-me hoje, pois amanhã todo o fogo que te move se escapará da minha mão.
Andei por tão longe que perdi a noção dos passos pelo caminho,
encontrei no meio de bugigangas que vasculhava, uma grande peste
e lá me deparei com gente convicta - assim como eu era, lembras-te?
Só que não pude acreditar nelas, nem em mim, e deixei-me sozinho.
Estão mortos, até mesmo os que, como eu, pensam ter em si vida...
Coloquei a minha verdade na grande pira, para que fosse consumida.
Ardeu... toda ela era mentira.
Não finjas que não entendes, eu terei de ir embora...
mas agora que te reabraço... como posso te deitar fora?

Poesia, promete que não me prendes.
Vim cá só ver-te, saber como estavas e se ainda sabes quem sou.
Como se mantém quente este teu quarto em que a peste nunca entrou!
Lá fora, o mundo é gelado à pele e vazio por dentro;
somos homens e mulheres perdidos,
como círculos desenhados sem a referência de um centro.
Pode ser que a vida volte a ter um gosto, uma nova vontade,
que em algum momento, haja o esquecimento desta verdade,
que como as outras será mentira!
Podes! Guarda-me em teus braços!
Oh Poesia, meu amor, prende-me no teu leito com toda a fantasia!
Amanhã partirei; triste sabendo que até tu serás perdida um dia...


Rui Diniz

Descegados

Na névoa da noite escura,
a chuva bate o chão que piso.
A irmandade das coisas fúteis
estará por esta hora condensada em algo
mais efémero que a própria vida.
O que é não sei,
mas talvez seja um chicote novo!
É que ao invés de cá passar uns anos
jogando às cartas e aprendendo truques,
estes frades ascetas deliciam-se
com o látego colorido,
embebedado e benzido,
que lhes lacera as costas
do cérebro.
Os ruídos racham-lhes os ouvidos
e as investidas estalam-lhes a pele,
mas ainda assim riem
quando passo à frente dos seus abrigos.

À minha frente,
por entre os canteiros
de flores pintadas que evito pisar,
um cheiro a podre assinala-se
sem convite:
é a morte feita plástico.
A química luxúria de Deus.
A beleza rasgada
que tresanda a merda
retocada com tinta.
É a nova re-génese reordenada
deste ser desumano e divino,
de raiz olvidada,
de vontades perecidas,
de morte anunciada,
de espirais remexidas,
de sangue impuro,
de escravas vidas,
de ferro duro
espetando-lhe as feridas!
Esfrego o cheiro para fora do nariz
e prossigo,
confiante
que esta peste se alquimize!

Reforço o passo;
na direcção contrária
à corrente do vento comum
- sempre com a chuva batendo o meu caminho
e esta noite que me ilude
e me revela sozinho...
A noite é muito antiga!
Matreira e convencida!
Segura de que seu véu esconderia
a multidão dos descegados
que a vêem dia...
e eu que vos falo da noite
e desta chuva agreste
que me gela a cara!...
mas no meu âmago,
um sol inteiro já brilha;
uma luz que atrai as traças
e até mesmo alguns cegos
de asas lassas...

Ah! Minha Terra, meu poiso, minha mãe!
Meu colo molhado pelas lágrimas
que choras há milénios:
Nós os vivos, amamos-te...
e apenas isso irá bastar:
para derrubar impérios
e te salvar!


Rui Diniz (2007)

02 março, 2010

O Homem da Televisão

Eu sou o homem da televisão!
E tenho a vossa mente
à distância de um botão...

Dia a dia vos trago a verdade
que vos mantém!...
E se não me ouvem
não são membros desta Terra,
onde os marginais são perigos
e as vossas mentes,
sintonizadas por mim
para esta guerra!

Sou o vosso amigo,
o vizinho sem incómodo,
aquele filho com sucesso,
o ancião que dá conselhos...
Entro por convite em vossas casas
e a minha voz é sinfonia
que abre as asas
à vossa emotiva
desarmonia!

Ahah!!!

Eu!...
sou a moto-serra
que vos decapita as ideias!
Eu!...
sou o sarcedote,
o intermediário
da verdade que interessa,
uma antítese de Amor
que vos adversa,
mas que mantêm a todo o custo!

Eu sou a voz do Pai!...
a segurança.
Sou a tempestade!...
sou a bonança.
Sou o lucro, o prejuízo,
invado-vos a alma
com o meu juízo.

Sou o juíz da norma
e passo-vos sentenças
aos desejos mais em forma.
Sou o carrasco
dos vossos mundos!
O meu capuz é maquilhado
e o meu machado é um quadrado!

Sou o Homem da Televisão!
E tenho a vossa mente
à distância de um botão...


Rui Diniz

18 junho, 2008

300 Palavras Contadas

No próximo dia 23, segunda-feira, abre o novo blog “Palavras Contadas” em http://contadas.blogs.sapo.pt :

300 palavras. (Quase) nunca mais, algumas vezes menos.
Será com 300 Palavras Contadas que nós 5 vos contaremos histórias.
Faremos chegar a vós, 5 vezes por semana de segunda a sexta, as histórias diferentes que nos nossos mundos vão sendo criadas.
Somos diferentes entre nós; 5 seres de individualidade que respeitarão a vossa.
Este projecto é um ser próprio. Nós somos os seus 5 sentidos.
Sejam vós o 6º, dêem-lhe profundidade, tornem-no consciente.
Leiam, comentem e participem.

Os escritores residentes trazem-vos todas as semanas, no seu dia respectivo, uma nova história original:

Rui Diniz (Segunda-Feira)

Vivendo uma vida recheada de coisas para contar (e tantas vezes difíceis de explicar em palavras!), Rui Diniz é do tipo de pessoas que nos fazem pensar, que nos provocam. Ele incita-nos a ver com os nossos olhos tudo o que passamos a vida a ver com os dos outros.
Ao contrário do que podem deduzir, ele só tem 29 anos...
Cedo revelou qualidades literárias, entre outras. É um rebelde apaixonado, um filósofo, um poeta. Ele escreve procurando a lucidez que tanta falta faz ao ser humano. Passo a passo, a tem encontrado; passo a passo, se tem encontrado.

Francesca Cortez (Terça-Feira)

Francesca Cortez aka Belle Santos aka Frol, leitora compulsiva desde que aprendeu a ler, conhecida pelo sadismo próprio dos professores de Matemática e por ameaçar de morte os seus alunos, iniciou-se nas lides da escrita, tendo apenas como objectivo limpar a alma. Passou, então, a debitar palavras para o papel de forma tão compulsiva quanto as costuma ler.

Luís F. Alves (Quarta-Feira)

Luís F. Alves gosta de histórias. Qualquer tipo de histórias, desde que bem contadas. É isso que vem tentando fazer nos últimos anos: contar histórias tão bem quanto possível. Poucos dos seus esforços vieram a público, estando esses disponíveis no seu site pessoal. Outros projectos incluem os podcasts O ARMÁRIO DAS CALÇAS (parte do site com o mesmo nome) e NA ESTRADA, para além de participações regulares no blog O OUTRO LADO DOS COMICS. Aguarda-se para breve o lançamento do livro que escreveu em 2006. Embora não se saiba bem quando ou onde.

Jorge Amorim (Quinta-Feira)

Em linhas gerais, Jorge é um ser humano.
Conhecido por despejar ideias em forma de letras por diversos espaços electrónicos, sem qualquer relação com a maçonaria, leitor de comics e super-herói em part time. Junta-se a projecto inovadores para procurar a fama fácil e os rios de dinheiro associados.
Em linhas concretas, Jorge Amorim é o maior do seu bairro (dizem os rumores que é o único a habitar o bairro no momento).

B.T. Estanqueiro (Sexta-Feira)

B.T. Estanqueiro estreia-se na escrita com este blog, depois de anos de ávida leitura de histórias, contos, romances, BD, sci-fi, fantasy e listas telefónicas.

"Quero contribuir para o mundo literário com algo de... escrito." Afirma B.T. Estanqueiro em entrevista.

Ficaremos à espera, com interesse, das suas contribuições, desde que estas não se prolonguem por mais de 300 palavras.

29 maio, 2008

Explicação 2

Não me esqueci do blog. Espero em breve ter notícias... favoráveis.

Rui Diniz

09 novembro, 2007

Explicação

Devo-vos uma explicação. Passaram meses e nem um poema, nem uma palavra aqui na Corte.

Isto foi fruto do projecto de um livro cujo processo de escrita se iniciou, exactamente, em Agosto. Não é poesia desta vez, mas sim ficção científica. Leram bem; ficção científica. A história desenrola-se no futuro, daqui a cerca de 4300 anos... mas pouco mais vos adianto - até porque não sou nada desenvolto a opinar acerca de trabalhos meus.

Espero um dia apresentar-vos este livro e que ele seja tão importante para vós como o é para mim. Foi uma viagem escrevê-lo... e fi-lo por vós; não duvidem.

Como ainda estou neste modo mental, não vos sei dizer quando surgirá um novo poema aqui na Corte ou uma nova declamação na Voz.
Não se preocupem, esta não é uma mensagem de despedida da blogosfera.

Muito grato por tudo,
Rui Diniz

23 agosto, 2007

Para a Ovelha

A manhã de um novo dia já nasce velha,
pois floresce na lama de um jardim putrefacto.
Para a ovelha, não há tacto;
só um sonho longínquo e um sentimento de dever
e a roupa rígida que não se atreve a romper.

Os corpos são amestrados pela cabeça
e movimentam-se em modo automático.
Para a ovelha, tudo é estático;
aprisionada entre os deuses e os demónios,
entre o espírito santo e seus heterónimos.

As horas passam num movimento sem mente,
um vácuo que se preenche na obediência.
Para a ovelha, não há ciência;
só a mão erguida e a face derrotada,
unidas à ignorância que usa como uma espada.

No seu estômago, digere a vontade que entregou
às carícias das mãos paternas dos pastores.
Para a ovelha, não há sabores;
Há um pão duro engolido a cada alvorada
completado com um café
e um doce pastel de nada...


Rui Diniz

31 julho, 2007

Poema Suspirado

Algures, num momento de silêncio,
neste campo aberto que é a minha vida,
de noite,
sempre de noite - quando a magia acontece,
surge uma forma no vento
e nele,
um poema suspirado.
É certo que os poemas são mesmo efémeros
e as palavras um dia serão nada,
desaparecerão no esquecimento das eras
tal como as peles que vestimos
e os nomes que ostentamos.
O poema que é teu,
trazido pela brisa que na relva fresca te desenha,
um dia não será mais que outra coisa,
acompanhando-nos,
na impiedosa sucessão de formas e sabores
que provamos
e temos de largar.

Mas esse teu suspiro
e essa tua forma
e esse teu poema
e esse teu sentido (tão próximo do meu)
pintaram-se no quadro do horizonte
deste campo aberto que é a minha vida...
e de noite, sempre de noite - quando a magia acontece,
a realidade perceptível da ilusão do universo
colidirá com nossos fogos,
ardendo em uníssono,
dançando no mesmo vento
que agora desenha nós os dois,
que agora suspira o ar quente da cama embriagada,
que nesse momento se deixa entregar...
no mesmo campo aberto que é a nossa vida
e de noite - quando a magia acontece,
àquela pequena parte de um segundo
de uma eternidade passageira.


Rui Diniz

13 julho, 2007

Crepúsculo

Fotografia de autoria de Selena Nery

O mar âmbar morrediço de mais um dia
que se dilui na dureza inexpugnável da penumbra,
traz o encanto e a magia,
traz um manto feito sombra.

A manhã nova que já se aguarda
nada mais traz na sua farda
que outro dia e outro "amor",
e outro sol e outra dor,
e outra conquista pelo ser maior
que na sua empresa,
mais perde de vista
a Natureza.

Humanidade perdida,
a quem ciclicamente a paz é concedida
no intervalo precendente a cada açoite;
Humanidade arrefecida,
que deste o teu poder aos deuses da vida
e que agora gelas no medo da noite.

Ah! A manhã nova que já se oferece
que nada mais traz, em que nada acontece,
é a nova era de um novo mesmo,
em que outra farsa, em que outro sismo,
em que outro céu, em que outro abismo,
nos envolverá na certeza
que mais perde de vista
a Natureza.

O mar âmbar morrediço de mais um dia
que se dilui na dureza inexpugnável da penumbra,
traz o encanto e a magia,
traz um manto feito sombra...


Rui Diniz

06 julho, 2007

Guerreiros !

Guerreiros!
Irmãos meus!
Que outrora nas vossas lâminas
sucumbiram as doenças da Terra!
Chamo-vos de novo, Irmãos!
Toco o sino do chamamento
que vos acorda das drogas e das novelas,
que vos devolve o punho firme,
o escudo erguido,
as lanças de sentinelas!

Guerreiros!
Irmãos de sangue!
Filhos da serpente das estrelas
atormentada por vossas vozes!
Gritai de novo, Irmãos!
Canto a melodia da batalha
que vos bombeia o coração e os sentidos,
que vos veste a armadura brilhante,
o elmo nobre,
a aliança dos contidos!

Guerreiros!
Irmãos de alma branca!
Reergam os batalhões de nobres bravos
que outrora derramaram sangue Atlante!
Venham a mim, Irmãos!
Toco o sino do chamamento
que vos invoca à chuvosa alvorada,
que vos devolve a coragem
e às nossas mãos,
a fiel espada!


Rui Diniz

22 junho, 2007

M

Manto sobre manto,
regra atrás de regra,
descobrimos o encanto
da existência cega...!

Manto sobre manto,
linha atrás de linha,
constato com espanto
que a visão não é só minha...!

Manto sobre manto,
porta atrás de porta,
revela-se o quanto
esta vida não está morta...!

Manto sobre manto,
ânsia atrás de ânsia,
sacrifica-se um santo
para manter ignorância...!

Manto sobre manto,
grito atrás de grito,
entoo este canto
p'lo despertar que agito...!

...

Manto sobre manto,
vida atrás de vida,
espero no entanto...
alcançar-lhe uma saída...


Rui Diniz

12 junho, 2007

Amo

Amo no meu corpo.
Amo nas ligações entre átomos
ou lá o que se queira chamar ao infinitésimo
da infinita parte do que nada é.
Amo e apenas amando
me mantenho unido,
na forma do que interpretas
como um homem de bom umbigo.

Amo na minha mente.
Amo nas correntes cíclicas entre pensamentos
e nas espirais da consequência
daquilo que do nada é consciência.
Amo e apenas amando
me mantenho pensante,
na forma do que interpretas
como um homem bem ensinante.

Amo na minha alma.
Amo nos estágios da simbiose
entre os sonhos que a existência inflama
e que a essência acalma.
Amo e apenas amando
me mantenho existente,
na forma do que interpretas
como um espírito de sol nascente.

Amo...
logo existo.


Rui Diniz

07 junho, 2007

Bandeiras & Fogo - Apresentação do meu 2º Livro

Pois é. Ao fim de menos de um ano após o primeiro livro "Corte d'El-Rei", é tempo de anunciar a minha segunda obra, "Bandeiras & Fogo".
Muito mudou, muito ardeu, muito se reconstruiu. Neste livro junto todo o fogo que queima as bandeiras do mundo que vejo da minha janela.

Bandeiras & Fogo
PDF - €5
Livro - €10
(Pagamento por CC, MBNet ou Paypal)


"Há bandeiras e fogo nestas páginas.

Há bandeiras que ardem, há chamas como bandeira. Há palavras como arma contra a verdade que não o é, há uma busca como verdade em si mesma.

Há histórias, reais, fictícias, mas coerentes em si mesmas e com as outras. Há uma visão, um tema, um Universo.

Há uma mente.

Ler os poemas que se seguem é, pelo que me diz respeito, espreitar a mente do autor. É certo que isso é comum a toda a boa poesia, mas este caso parece-me especial. Talvez seja por conhecer bem o Rui que o vejo espelhado em todas as palavras aqui contidas, mas penso que não. Penso que estes poemas estão demasiado mergulhados no seu característico inconformismo (ou mesmo ANTI-conformismo, como lhe digo por piada), para não serem entendidos como um ponto de vista único sobre o mundo. Mesmo quando fala de amor (que poeta não fala de amor, afinal?) as mesmas ideias transparecem, o mesmo questionar das regras assume-se.

Há aqui uma visão única sobre o que nos rodeia. Há aqui um mundo a arder em mentiras e dogmas. Há aqui bandeiras que não servem a ninguém.

Há bandeiras e fogo nestas páginas. Deixem-nas arder."
- Prefácio de Luís F. Alves

"O Rui é um poeta. Diferente. Usando a linguagem da matemática, o Rui é um poeta ao quadrado. Como todos os poetas, escreve. Como poucos poetas, depois de escrever, lê.
E o poema escrito, depois de dito, é outro poema. Nunca uma cópia, outro poema.
Sendo a minha forma de estar na vida ler o que os poetas escrevem, esta duplicidade do trabalho do Rui encanta-me.

O Rui é, por outro lado, o típico poeta dos Novos Tempos, os tempos da Internet. Nela nasceu, nela escreve, nela lê, nela será famoso. Rapidamente, porque na Internet tudo acontece, já.
Que tal rapidez não apague o que de bom por lá anda.
Que o Rui não seja meteorito que se perde no Universo mas aquele que cai nos braços da Terra e permanece para nos recordar os que voam alto porque são poetas."

- Introdução de Luiz Gaspar

05 junho, 2007

Reflexão sobre o que nada é

Chamo-lhe mudança mas alimento-a de esperança.
Na via do inevitável nem um generoso raro
me adoça a boca,
porque o que corre nas minhas veias é sangue
de esperança,
sangue modificado e memorizado
no esquecimento dos milénios.

Ajo esperando, como se não tivesse fuga
e na realidade fujo dela
pelo medo de não existir mais.
Resta-nos pouco tempo e eternidades banais,
umas futilidades inúteis,
uma eterna procura pela quimera que não existe,
pela segurança de lá fora
imposta cá dentro...
mas o que não nasce aqui dentro não vive
e por isso não morre!
Se não fizessemos questão em nascer
e fazer nascer vez após vez,
nunca morreriamos e na realidade, como agora,
não existiriamos - nem num sonho mal dormido.

A verdade é que nada é;
nada pode ser mais que uma forma numa chama
que o vento sopra!
Nada nem ninguém se segura à ilusão de
existir em si, por si, para si...
que nada é e nada se cobra!
Deixamos uns contratos assinados
com o futuro incerto
e outros tantos que nem lemos
por nos faltar a vista
e por esta miragem persistente nos envolver,
como múmias num sarcófago, embalsamados.
Somos é uns mal-amados!
Renegados por nós próprios
seguindo as imagens veneradas
que tão longe estão de nós como as estradas
que nos apontam para seguir os nossos ópios.

Ergue-te ó tu que nada és!
Ergue-te e luta pelo teu pedaço de nada
que é Amor da cabeça aos pés
e que vale a pena ser defendido...
nesta esperança da mudança
que afinal, como nós,
nada é de definido
e só vive na etérea
lembrança!


Rui Diniz



Acabei de criar um audioblog onde junto todas as declamações de poemas (maioritáriamente meus) que vou gravando. Se quiser dar uma olhada (e uma escutadela), visite A Voz da Corte.

21 maio, 2007

Momento

Fotografia de autoria de Alex Gil

Piano de fundo,
é Jarrett em Viena,
um murmúrio
na roupa
que largamos em cena...
Umas mãos saudosas,
suaves e quentes,
invadem
teus espaços
incandescentes...
A boca de nós dois
resolve o mistério
por detrás
do sabor
de um beijo sério...
As verdades que vestimos
deixámos à porta,
que aqui dentro,
o momento,
é só o que importa...
Tens na pele
marcado
o mestrado da vida
e eu tenho na minha
suavidade contida...
Gritas e gemes
no teu mar revolto,
arrepios
atravessam-te
quando te volto...
Com as mãos na parede
eu entro em teu corpo,
vês que na verdade
ele tem estado
morto...
As mãos saudosas,
que agarram o arrepio,
são vivas lembranças
do teu rodopio...
Deixaste-me o corpo,
escorrendo prazer,
encontrei-te
nas nuvens
e refiz-te Mulher...
Se o orgasmo que soltas
for um grito infinito,
nós dois cantaremos
no prazer
deste calor...
bendito.


Rui Diniz

14 maio, 2007

Professor

Passo os meus dias com as crianças,
fingindo ser um pai que não respeitam.
Deixo a consciência à porta,
remeto o coração ao silêncio,
presido a rituais de veneração
a livros gastos e indolentes.

Não apresento nada de novo
e não o faço por mim.
Faço-o por chegar a casa e tê-la.
Faço-o para dar alimento ao corpo
e para preservar
este "eu" tão submisso...

Sou professor ou lá o que isso é...
não ensino nada nem tal é suposto;
devia ser um auxilio e não um posto.
As crianças nem me ouvem e ainda bem...

Eu alimento a esperança tímida
de que são os que fogem
que um dia
serão alguém...


Rui Diniz

30 abril, 2007

Bregenz ao almoço

Excerto do Concerto de Bregenz de Keith Jarrett

As notas ecoam na minha cabeça...
"tam, taram, taramtaram...".
O amigo Jarrett ajuda-me a encher minutos vazios de tempo eficaz.
E ele lá continua "taram, taram"…
e na segunda vaga da melodia,
surges tu como uma chama que acende o pavio de uma vela.
As velas, por muito belas e bem cheirosas que sejam
acabam sempre por gastar todo o pavio
ou afogar a chama em si próprias...
e nem tu és excepção...
nem tu,
a vela mais bonita de todas as que já vi arder,
apenas porque és a vela que aqui hoje arde em mim.
Em muitas religiões,
as velas estão associadas a promessas, a desejos, a pedidos...
e se usar a analogia contigo,
és a promessa mais forte,
o desejo mais ardente
e o pedido mais profundo...
que a tua chama se apague tarde, é melhor do que cedo.
E sem religiosidade mentirosa te digo
que quando a tua chama se extinguir nessa vela
noutra arderá… como eu,
como tudo,
como todos,
nesta unidade energética que partilhamos!

No meio disto,
o Keith já martela o seu piano,
com os dedos nas teclas e os pés na madeira;
é um maluco!
Mas um génio. Como qualquer maluco...
ou melhor, qualquer génio é seguramente um maluco…
Que a loucura é a genialidade da diferença
exposta ao medo que temos de ser iguais…
na diferença.
Hmm… Mas isso agora... não interessa.
A música sim, interessa. O momento.
E a tua face sorrindo também.
E o teu beijo tão quente, doce e molhado
como chocolate derretido em leite.
Isso sim, interessa.
Esse ambiente de quase morte por prazer que me faz tão dormente.
É isso que importa.
Porque a morte, tal como a vida, é um prazer;
o prazer de apenas ser;
é a existência, a experiência,
a partilha…
E no fim,
sim, no fim do que quer que seja que se transforme
e que vemos cegamente acabar,
é isso que fica
e é isso
que à luz do sol ou da lua,
realmente importa…


Rui Diniz

23 abril, 2007

Meu Mundo, Minha Casa

Pode ouvir a minha declamação deste poema aqui: Meu Mundo, Minha Casa

O que eu queria era não ter casa;
vaguear no mundo como um saltimbanco,
vagabundo,
exibindo os meus truques lúcidos
pelas feiras do amor e do sexo.
Queria ter nexo;
com este mundo e comigo
e não ter tecto,
nem umbigo,
transportar as miragens do que sou
por outras paragens...

Mas tenho-me aqui;
agarrado a este ermo escuro
cheio de arestas
e paredes e cantos;
eu quero é ar puro!
Quero fazer do mundo
um lar,
inseguro,
para não amordaçar...

Quem me dera fazer da minha casa
uma montanha,
uma quimera de onde todos os ventos partem,
uma floresta, um lago,
uma entranha
do ventre materno que afago
e que não estranha
quando parto.

Mil mulheres passariam por meu lar,
mil corações que não se calam,
que cantam por esta casa infindável,
sem arestas
ou paredes ou cantos;
mas repleta de espantos
e de amor insaciável...

O que eu queria era não ter casa...
ter sim o mundo
e em cada braço,
uma asa...


Rui Diniz

10 abril, 2007

Caixa de Comprimidos

Ouça a minha declamação deste poema aqui: Caixa de Comprimidos

Tenho uma caixa de comprimidos na mão;
devo tomá-los?
Ou talvez não?

Se bastar o momento para conseguir,
talvez assim...
eu de facto me deixe ir.
Não faço cá falta;
fica cá toda essa malta
por aí...
inexistente...
a sorrir... ...

Que casa vazia esta!
A que o meu corpo habita
e o corpo
que a minha alma infesta!
Não é preciso mais drama...
Só uma cadela aquece esta cama
e traz ternura à mesma mão
que segura a caixa profana...

Não vos quero dar mais neste momento,
nem jamais me converter!...
sirvo-me agora de um lamento
e já só me falta morrer...
Que morte lenta e penosa
vivo por entre os anos!
Como pode minha marca ser saudosa
se meus pensamentos são insanos?!
Tenho mil demónios contidos!!
UMA LEGIÃO!!!!...

...e uma caixa de comprimidos;
devo tomá-los?
Ou talvez não?


Rui Diniz

02 abril, 2007

Salteador de Intervalos

Vivo salteando os intervalos,
pelas marés cheias do ser,
montando meus cavalos,
sentindo meus resvalos,
beijando rainhas
das elites do prazer.

Assumo o meu destino
como se ele o fosse...
e à minha escolha
como a um caminho.
Se aceito viver sozinho
e embriagado de emoção,
amem-me;
o Amor do meu vinho é farto
e servido em cálices
pelo chão!

E quando um intervalo finda,
parecendo que não...
eu sou lúcido ainda!


Rui Diniz

27 março, 2007

É Preciso Viver!

É preciso viver!
Os lençois gastos de uma manhã
mal acordada!
O sonho que de cedo nos entrou
pela madrugada!
A flor que por nós passa
e permanece parada!
O jardim que se levanta pela
janela escancarada!

Viva-se a chama solta
de vestimenta!
Viva-se
sem tormenta!
Viva-se o corpo e a mente
unos!
A moral isenta,
os sentidos limpos
e imunes!

É preciso viver!
O mar turbulento quando se chora
sem razão!
O sorriso rendido quando alguém nos seca
com a mão!
O amor entregue, sentido e abençoado
pela razão!
A vida que percebemos e a que sentimos
no coração!

Viva-se a alma solta
de lamento!
Viva-se
cá dentro!
Viva-se o corpo e a mente
unidos!
A incerteza da lógica
entrelaçada com a dos
sentidos!

Amigos!
É preciso...
viver!


Rui Diniz

13 março, 2007

Noite

Noite...
o limiar da minha fortuna.
A massa em que me afundo
entre um olhar lúcido
e uma existência
missionária e dolorosa.
Só...
Só na noite...
Sem guarida senão um telhado passageiro,
sem amor,
senão em cada porto de marinheiro...

Compreendo-me,
só,
na noite.
Observo-me
e o quanto sou
e o quanto dou
que afinal,
contas feitas,
é nada.
Uma armada
armada com nada.
Não fujo e atropelo-me.
Não morro e enregelo-me,
no frio,
só,
da noite...
Noite...
o limiar da fronteira
entre a lacuna em que sempre estou
e a loucura
do que sempre,
mas sempre,
sou...
e só,

na noite...


Rui Diniz

05 março, 2007

Não Faço Nada

Eu não faço nada.
Nem aponto com certezas um remédio,
nem ajo sobre os problemas.
Apenas aponto o lixo
geralmente com o dedo médio.
Recomendo a muita gente hipócrita
a visita ao falo geral,
conhecido pelo infinito
e pelo insulto banal
que não se evita.
Mas eu, propriamente, nada faço.
Fico-me por aqui a falar
e a escrever monotonias
que ninguém sintoniza.
Por vezes, nas minhas manias,
sou como a torre de Pisa
que se não páro de me inclinar
cairei um dia
de cansaço...
Ai que nada faço...
Parece faltar-me energia
para combater a homogenia
e despertar pessoas
com o meu dedo médio,
em riste,
pintando as coisas boas
com a verdade do assédio,
com que eles fazem do alegre sonho,
o mundo triste...
Eu até me envergonho,
se me olhar socialmente;
sou um demente,
enfadonho,
inconsequente,
tristonho
e exigente...
Oh que merda!
Tinha de brotar de mim esta loucura
no meio de um mundo são
e intransigente!
E o que nos conserva
é este duro e escasso pão
com que esse tal deus de brandura,
alimenta a sua gente...


Rui Diniz

25 fevereiro, 2007

Larguei-te no Mar

Fotografia de autoria de Dulce Lázaro.
Pode ouvir a minha declamação deste poema, aqui: Larguei-te no Mar


Larguei-te no mar hoje...

soltei as tuas cinzas de dentro de mim
e expus-te ao vento cantante;
ele levou-te mas nunca te espalhou.
Manteve-te na íntegra
a mulher que hoje é passado
e que inteira me renunciou.

Foi melhor assim
e não sobreviverá em mim qualquer mágoa,
mas libertando-te nesta água,
procurando de ti hoje o fim,
compreendo
que se o sol fura o cinzento do céu
só para te ver...
é porque alguma coisa entre nós
ficou por viver...


Rui Diniz

19 fevereiro, 2007

Poeta!

Duvidam da palavra de um poeta?!
Um poeta ama as palavras!
Um poeta tem muitas não só uma!
Um poeta sabe que ou tem as palavras certas,
ou nenhuma!

Com que autoridade tiram crédito ao poeta?!
Um poeta ama as verdades!
Um poeta tem muitas não só uma!
Mesmo que não concretas, o poeta ou tem várias,
ou nenhuma!

Quem são eles para humilhar o poeta?!
Um poeta ama o ridículo!
Um poeta veste de ridículo a sua pluma!
A sanidade da sua ideia ou é ridícula,
ou nenhuma!

Podem ir em Paz, opositores do poeta!
Um poeta ama a Paz!
Um poeta tem muitas não só uma!
Um poeta sabe que ou tem a Paz da alma e a do corpo,
ou nenhuma!


Rui Diniz

13 fevereiro, 2007

A tabaco e vinho

A tabaco e vinho tento alcançar-te;
na ausência de um espera
que nos une e divide.
Passados tantos anos sem te conhecer,
sinto que vivi a apresentação
de uma qualquer cerimónia
em que premiaram a minha carreira
com o teu coração.
Uma carreira no cinema,
da qual só me lembro
da tua entrada em cena;
chegaste vinda de um Dezembro
sentindo que contracenar comigo
valeria a pena.

Há um certo gosto
que não se dilui neste Porto
nem no fumo de Amsterdão;
o sabor da tua boca em desejo
e do conforto
que te acompanha o sorriso e a mão...
Estou aqui, absorto.
À minha volta a vida ainda gira,
imersa na artificialidade da mentira,
perdida em rumos falsificados.
Quem dera que todos eles fossem amados
como o sou por ti, mulher...
Quem dera que todos eles pudessem colher
os frutos de uma boca como a tua,
pois aí estariam eles absortos,
e comigo, deixariam de girar na vida,
largariam as coisas e estariam de partida
para onde os meus sonhos vivem soltos.

Não sei em que lugar estou,
mas estou contigo.
Absorvo esta sensação no umbigo
de ver-te chegar de mansinho...
e entregue a tabaco e vinho tento alcançar-te;
na presença de uma espera ausente
que com meus sentidos no futuro
ainda vivo no presente...


Rui Diniz

02 fevereiro, 2007

O teu Tejo

Consigo agora saborear o doce Tejo
como a um milagre.
Confundo suas águas com a tua pele;
nas algas curtas que nele se banham
vejo o teu cabelo risonho...

Um barco passa, um sorriso teu;
o rasto que transpira
é o ajuste na tua face quando me olhas
feita Lua.
Tu mostras-me a Lua de todas as cores,
todos os tons
todas as indiferentes diferenças
que me ensinas a ver...
mesmo no cinzento de um céu nublado...

E perco-me na tua imagem...
Alcanço contigo a outra margem!

O Sol vai-se escondendo atrás de ti,
o Tejo leva ao Mar o teu beijo,
para se perder na tua foz arrepiada,
como eu, quando embriagado no desejo
de te dar a madrugada...

A luz da doca mistura-se
com o arrepio da tua lingua em meu suor...
A boia baloiça num movimento ritmado,
como quando me fundo em ti
e na Estrela brilhante
que te habita
a Alma...


Rui Diniz

28 janeiro, 2007

Grito Desprezado

Quando eu nasci
ninguém me perguntou
se queria viver aqui.
Prometeram-me felicidade
a troco da vontade
em obedecer a quem não sou!

Entrei no mundo pela calada,
ao princípio de uma noite
ordenada...
por aqui fiquei
e aceitei
que a minha vida não é nada!

Pus-me de joelhos perante autoridades
sem então saber que vontades
as comanda!
Acolhi as vossas verdades!
Fiz minha a vossa demanda!
E continuei com nada!

É por isto que a solidão me invade!
A solidão de quem está cercado
sendo soldado
numa guerra sem piedade!
Guerra em nome da consciência!
Da decência!
Da evidência!
Da essência!...
Guerra contra o perigo
da vossa urgência
em trazer de novo
o Mundo Antigo!

Querem o Quinto Império
em nome de um Deus que vos sorriu?
Pois levem o Império
para a puta que vos pariu!
Quero lá saber se estou bêbedo e cansado!
Não me tivessem lançado ao rodopio!
Mesmo que venha a ser um mal-amado
e para vós, doentio,
lanço o meu grito desprezado!

Hoje estou fodido!...
E se não gostarem do vocábulo,
mudem-lhe o sentido,
mas eu não fico no estábulo!...
Como sou eu quem este poema vos traz,
e estou fodido,
se não gostarem do que digo,
deixem-me em paz!


Rui Diniz

22 janeiro, 2007

Pátio Gaivota

A fotografia é de autoria da Alexandra Gil. Pode ouvir a minha declamação (desta vez caseira) deste poema, aqui: Pátio Gaivota



Apercebo-me que estou perto.

Um arrepio atravessa-me.
Há muitos anos não estou tão próximo
deste lugar incerto.
Saí de casa um menino,
procurando a lucidez
entre o sábio e o divino,
encontrando na viagem,
nitidez.
Ali está ela,
a casa do canto,
com a mesma porta...
e à volta dela
o mesmo encanto,
do perdido Pátio Gaivota...
Nos vasos, outras flores,
no ar, já sem o veneno
das passadas dores,
transpira um trapo
mais sereno...

A porta abre-se,
revela uma criança de sorriso ardente,
o mesmo sorriso ingénuo
agora de mim tão ausente!
É filha de alguém feliz!
Refugio a vergonha
por detrás de um cigarro,
e quando de lá dentro alguém diz
"Cuidado com algum carro!"...
a criança sonha!
O infante brinca indiferente,
alheio à minha tortura,
infligida pela lembrança
da negrura
desse Pátio Gaivota
do meu tempo de criança!
E este olhar pungente
o meu saber não enxota!
A criança passa correndo
e sou eu que vou lá,
brincando,
ardendo,
sonhando,
perdendo,
fumando,
esquecendo...
que a criança sofrendo,
afinal,
já lá não está.


Rui Diniz

14 janeiro, 2007

Quando Eu Morrer

Usufruindo das soberbas capacidades técnicas do Estúdio Raposa e da mestria e sapiência como produtor do Luiz Gaspar, gravei a minha declamação deste poema. Ouça-a aqui, enquanto o lê: Quando Eu Morrer


Quando eu morrer...

Morre o filósofo e o poeta,
morre o homem da caneta.

Morre o jovem e o idoso,
morre o pensante perigoso.

Morre o músico vacilante,
morre o nobre viajante.

Morre o intrépido cavaleiro,
morre o tímido prisioneiro.

Morre o charmoso galã,
morre o menino da mamã.

Morre o monstro condenado,
morre o mestre iluminado.

Morre um corpo que figura
esta Alma que perdura!

Morte!

A metáfora suprema,
a mudança de cena.

A destruição da evidência,
a afirmação da existência.

A sensação de liberdade,
a desilusão da saudade.

A podridão da biologia,
o alimento da maioria.

A promoção do lamento,
a suspensão do sofrimento,

O elemento indiferente,
o momento convergente!

Por isso,
quando eu morrer...

cantem Bécaud!
Inundem-se com a canção que vos dou
cheios da vida que vos compete:

"Quand Il est mort le poéte..."


Rui Diniz

08 janeiro, 2007

Sinto-me Só

Sinto-me só,
como quaisquer magos;
Como qualquer Rei com um só olho
num mundo de cegos;
E só me sinto,
mesmo não estando na verdade;
mas não se escuta o som das vozes
que deviam encher as plateias
do re-despertar da Humanidade!
Sim! Onde está o calor das gnoses
que nos podiam aquecer ideias
ante a glaciação da realidade?

Que passos demos nós,
em prol da consciência,
se essa consciência a que pertencemos
só nos dá a noção da força que não temos?
E sinto-me só! Sinto-me só e com frio!
Sinto os meus pensamentos congelar no hipnotismo
de uma existência na nossa mente forçada,
e dominada, no materialismo!
Seres poderosos feitos tão fracos,
transformados de transparentes em opacos
com apenas uns anos no delírio
de serem trapos!

Que mortes vos esperam mentes inúteis?
Talvez tão inúteis como a minha,
talvez ainda mais fúteis;
se adoradores da Rainha.
Sinto-me só convosco, meus amores,
que vos amo a todos ainda
e aí sim, como nos programas,
talvez para sempre o sinta.
Assim é, não sei mais como vos diga;
sinto-me só;
aprisionado entre a fadiga
e o nó!

Peço-vos,
aos que despertam no perigo,
vençam os medos!
Peguem nas fundas!...

E partilhem comigo:
segredos
e perguntas!...


Rui Diniz