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28 abril, 2006

Minhau...

Fotografia de Alana Araújo, enviada por Roseane Pereira de Souza

De onde vim?
Queres saber de mim?
Cheio de ego absurdo,
sou altivo e peludo;
como chamam por mim?
Tareco ou Moisés?
Miiinhão! Que o caminho é dos pés,
e se aterro num quintal
é a comida que é igual
à fome dura que me fez!

Noutro dia chamei "pechincha"
a uma gatinha que reliiiincha,
quando sente em sua sela o manto
do meu trote bravio e manso!

Mas miiiinhaaaaau...
Sou um gatinho fedorento...
sou um gatinho pachorrento!
Paciente com a vida,
inconsciente da saída!
E se noutra vida não for gato não sei...
se não serei de uma selva humana
El-Rei!


Rui Diniz

11 abril, 2006

A Mulher da Máscara Rosa

Esta pequena história é um pouco mais completa. Coloco agora um pedaço que faltava:



Rodando a chave com uma só mão, segurando na outra a cadela pequena numa trela, Pedro abre a porta e entra em casa com um suspiro... da cozinha e da sala entra energicamente a luz do dia lá fora, mas uma vez cá dentro, regressa a escuridão. Não que hajam problemas com o quadro eléctrico, há candeeiros suficientes para bombardear as paredes brancas de raios de luz hertziana e também há dinheiro para as lâmpadas... mas mesmo assim está escuro. Muito escuro... Fecha a porta atrás de si e abre cuidadosamente o compartimento do contador, onde coloca a trela. A cadelita, companheira mais que tudo, segue-o como sempre, mordendo-lhe os passos até à despensa onde o observa a descalçar os sapatos, até à cozinha onde ele enche uma caneca de café sem açúcar e lhe dá um biscoito quando ela se senta e sorri, acelerando o trote para subir ao sofá arranhado quando o seu Pai abre a porta do escritório finalmente. Já lá ia quase um ano desde que deixou de trabalhar de noite, noite após noite, sem dias, sem Sol... tinha reconquistado a vontade de falar com o vento, de afagar uma flor bonita por qual passasse, mas aqui, na sua caverna, seu castelo, sua fortaleza de canhões apontados ao belo Tejo, a Noite permanecia.
Liga a televisão junto à varanda e carrega no botão do computador ao sentar-se atrás da secretária de madeira clara, guarnecida de um vidro no topo, já riscado pelo abuso, coberta de CDs e papeis a que o uso já não convoca... uma forte mesa, uma bengala, mais um grandioso legado do seu irmão. Estava de folga num fim de semana... não era raro, mas era infrequente o suficiente para sentir-lhe o gozo... dentro da medida possível. Afinal, continuava a sair apenas de casa para passear a Glenny e uma ou outra vez em que alguém o socorria sem saber, mesmo que o enviasse para o mais tedioso programa... há coisas que não mudam por si; nem por si, nem por ele. Precisava tanto de encher o coração de vez, como aquele café pedia um cheirinho de whisky.
“Hmmm, mas isso posso remediar...”; Carrega no ícone do programa de conversação escrita na internet e levanta-se, aproveitando enquanto tudo arranca automaticamente, para ir à “ala norte”, à sala, pingar o seu café com um blend corrente... que o seu malte de estimação, não se gasta assim. Por trás desse ouro jovem e envidraçado sorri-lhe um amigo celta, um druida, na bela garrafa de aguardente de generoso que tanta companhia lhe fez... aos pingos!... que disto aqui, faz-se pouco e goza-se muito! Ajeitou a vasilha de litro como que abraçando vigorosamente o seu amigo, como se ele sentisse naquele instante a palmada nas costas de agradecimento... pois nunca lhe agradeceu com conveniência: nunca soube como. Enclausura de novo as garrafas, fecha a porta vidrada da sua sala e atravessa o equador do castelo, até ao escritório a sul, para depositar a caneca no pano em frente ao teclado e acomodar-se, puxando um cigarro e acendendo-o de seguida. A sua mãe dizia-lhe vezes sem conta que “na televisão fala-se tanto do mal que o tabaco faz”, mas não havia com que se preocupar que isto aqui é só um cigarrito de vez em quando... os “quandos” é que são variáveis de tempo bastante versáteis... e com tendência a encolher, como que lavados a altas temperaturas por um sangue incandescente, mas mesmo assim, quase inerte. Fumar este cigarro lembrou-lhe outros; os da linda mulher rosada com quem partilhava travessias do rio...

Era mais uma manhã, rotineira, despertada ao som da rádio-jornal e do telemóvel estridente que assegurava a quebra do sono, qualquer que fosse; tranquilo ou recheado de eventos. Atrasou-se um pouco, pelo sono, e logo após comer os cereais com leite e colocar as sandes congeladas na sua boteira de aspecto infantil (mas prática, de facto) atirou um biscoito à Glenny e saiu de casa.
“Merda mais a esta malta toda!” – bufava Pedro atrás do volante. Só queria chegar ao Pragal, à estação, e não queria sequer ter alguma coisa a ver com a multidão que todas as manhãs pára na ponte a ouvir rádio, buzinas e insultos, que infelizmente tinha de seguir parte do mesmo trajecto que ele. O rádio ainda vá que não vá, agora o resto da miscelânea é demasiado stress para uma hora tão madrugadora...
Lá foi furando caminho até ao estacionamento. Fechou o vidro, retirou a chave da ignição e saiu do carro, trancando-o. Ainda ia a tempo de apanhar o das 9 e 17... mas chegou atrasado para a mulher da máscara rosa. Desapontado, deixou-se levar pela escada rolante de acesso à plataforma da linha 4. Do maço que levava no bolso da camisa puxou um cigarro como que por castigo, uma punição por ter-se deixado atrasar e assim ter pela frente uma viagem sem a doce vergonha da mulher atrás do enfeite.
Ah... essa mulher. Viu-a pela primeira vez numa manhã em que por mero acaso chegou mais cedo, a tempo do comboio da hora e 9 minutos, enquanto esperava perto da coluna das escadas de pedra quase por baixo do mostrador do destino e horário do comboio seguinte. Ainda nem a tinha visto, foi preciso o comboio aproximar-se da paragem para ela avançar e de imediato tirar-lhe o fôlego com a sua expressão incomodada e a forma nervosa, apressada e mesmo dolorosa com que fumava o seu cigarro. Figura fina, bem composta, de costas direitas e cabelo escorrido, arruivado e muito bonito. Por trás de uma marca de nascença grande, bem rosa, uma face dotada de magia e beleza feminina vivia escondida. A máscara não o impediu de a ver bela... ou melhor: de a ver, ponto final. Pedro leu-lhe nos gestos a intenção de se magoar, de fazer mal a um corpo, especialmente a uma cara, que a atormentava de nascença... e assim engolia mais fumo, mais rápido, esperando que o mais urgentemente possível os efeitos nefastos a atingissem finalmente e acabassem com a sua vergonha. Mas Pedro não via razão alguma para esconder uma beleza tão única e desde então, fez questão de todos os dias chegar a tempo ao comboio que passava minutos mais cedo só para a ver, mas falhou neste.
Submergido no ultimo terço do cigarro (já não denominado “light”), quase não deu conta que aquela mulher que lhe preenchia a mente subia pelas escadas rolantes. Apercebendo-se, Pedro sorriu sem se conter. Atrasou-se naquela manhã sem propósito e chegou a tempo mesmo assim... pois ela atrasou-se igualmente. No seu olhar, que entretanto cruzara o de Pedro, notou que já estava habituada à presença deste rapaz de cabelo comprido, óculos e feições de menino, deixando assim transparecer uma satisfação interior, apesar de muito tímida. Colocou-se imediatamente ao lado dele, semi-sorrindo, com o seu sempre presente cigarro fumado com avidez soluçante. Quando o comboio chegou, uns eternos minutos depois, os dois seres contentes, que não tinham conseguido quebrar a timidez e olhar-se nos olhos, entraram na mesma carruagem, na mesma porta, ficando de pé no mesmo compartimento. Ela, como costume, colocou-se perto à saída, num canto, de forma a observar a paisagem... e a esconder a cara com a vergonha aguçada. Ele, pouco atrás dela... e também como costume, sorrindo (hoje mais evidentemente que o normal) enquanto olhava fixamente a nuca dela, falando-lhe telepaticamente. Costumava contar-lhe eventos do seu passado ou falar-lhe de algo mundano (nunca soube bem como conversar com uma mulher desconhecida, mesmo que telepaticamente), mas naquele dia disse-lhe que era linda e que estava feliz por ela ter-se atrasado um pouco e partilhado com ele a sua vergonha encantadora. Pedro nem imaginava como tudo iria mudar...
Um ou dois meses mais tarde dessa ultima partilha, a mulher volta a cruzar-se, no mesmo comboio, com ele. Mas muito se alterara na sua expressão. Já não olhava envergonhadamente janela fora mas lia um livro que Pedro nem teve consciência de se aperceber do titulo. A sua cara irradiava luz e confiança, à vontade, calma... força. Bem no cerne de Pedro nasceu um nó e uma tremura no abdómen. Teve medo. Teve por ele e por ela. Por ele porque não era, ele próprio, um poço de confiança; temia desgostar com o seu olhar os olhos de uma mulher bonita. Tinha medo por ela pois jamais queria causar a sensação inversa do corar de uma face feminina quando sente que é observada por beleza. Coraria? Pedro, sentia, nunca iria saber...


Rui Diniz