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29 agosto, 2006

Cavalheiro

Hoje, fumei um cigarro.
Emprestaram-me o isqueiro,
deram-me o invólucro branco-laranja,
e foi com a alma em franja
que cheguei à sala do fumeiro
e entre a impestação alheia por catarro
me esfumarava inteiro.

Entrou uma mulher;
"Tem lume?" - mordendo o cigarro ao meu fogo ofertado
"Sim" - passando-lhe para a mão o mecanismo emprestado
Surpresa, não se conteve; "Julguei ser um cavalheiro!"
Rindo-me retorqui, com o meu ar mais matreiro:
"Que maior confiança deposito que ter na mão o meu isqueiro?"

É que nestas convenções de cavalheiros
escondem-se sagazes predadores de atenção,
mas são os que não procuram ser certeiros
que guardam os melhores sorrisos
no coração!


Rui Diniz

27 agosto, 2006

Apresentação do Livro + Audiobook "Corte d'El-Rei"

Confesso que quando a Celeste e o "Tó" insistiram que devia haver uma apresentação oficial para o livro, aceitei com reservas. Na minha cabeça desenolou-se um filme protocolar de grande rigidez e um ambiente formal centrado numa figura egoica que, apesar da alusão a El-Rei (que parte de uma eterna questão relacionada com o nome Diniz), não sou. Mais: a fazer-se teria de ser assegurado que este não era o lançamento de um Rui Diniz no mundo literário com pompa e circunstância nada enquadrados com a minha forma de viver e esquecendo-se da verdadeira essência desta edição e da sua intenção - fazer chegar o trabalho excelente do Luiz Gaspar na área da declamação e leitura e incentivar outras pessoas a declamar e com isso aprenderem a retirar prazer da poesia lida.

Preocupações vãs originadas por uma especulação inútil.

Tudo foi maravilhoso, bem para além do que a minha imaginação poderia alcançar. O Luiz não pôde estar presente mas o seu trabalho foi devida e honrosamente felicitado. Falou-se da intenção que esta obra transporta e da importância de ler a musicalidade na poesia - até inclusivamente exemplificada por uma declamação in loco do meu amigo Dinis Cortes - e por fim sim, falou-se de mim, com um carinho que me deixou rendido à ocasião.

Que a poesia e a declamação vivam muitos dias destes!
Agradecido a todos
por tudo.



António Melenas, que apresentou o livro, e eu em pose "fotogénica" :-)

20 agosto, 2006

Livro + Audiobook "Corte d'El-Rei"

Ouça a apresentação de António Melenas (Obrigado António!) clicando aqui.

O livro da "Corte d'El-Rei" incluindo CD de MP3 com as leituras integrais pela sublime voz de Luiz Gaspar e adoçados pelo piano simplista de Justin Bianco já se encontra disponível.

O preço de livro + CD é de €15 já incluindo portes. Poderá solicitar o envio à cobrança ou, se preferir, o pagamento por transferência bancária com envio posterior.
Se desejar comprar um exemplar, escreva-me para rpfdiniz@gmail.com indicando qual o método de pagamento preferido bem como a morada de destino para onde remeter o exemplar adquirido.

Também está disponivel em formato PDF pelo preço de €5, através de download imediato no site da Lulu. Para o efeito, visite: http://www.lulu.com/content/882947

António Melenas, excelente cronista com dois blogues activos e de elevado interesse, ofereceu-me a honra de escrever uma apresentação a este livro e audiobook:

«O meu nome é António Gouveia e estou aqui para apresentar o livro “Corte d’El-Rei” de Rui Diniz. É suposto então eu ser ou um velho amigo do autor ou um especialista em literatura. Pois nem uma coisa nem outra: não sou um crítico literário e muito menos no campo da poesia – objecto principal da obra a apresentar, e quanto à minha relação com o autor, direi que, até há uns três meses atrás, simplesmente não o conhecia, nem de nome sequer.
Acontece que o Luiz Gaspar, esse sim meu velho amigo, descobriu o blogue do Rui Diniz que tem como título precisamente “Corte d’El-Rei”. Gostou dos poemas do autor e tomou a iniciativa de declamar um deles na rubricaLugar aos Outros” do seu audioblogue “Estúdio Raposa”.
Foi a partir da leitura desse poema e do estreitamento de contactos entre ambos que nasceu a ideia da publicação deste livro, e de o fazer acompanhar de um CD com a gravação integral dos respectivos textos, através da belíssima voz de Luiz Gaspar - gravação efectuada por este no seu estúdio particular, o “Estúdio Raposa”. Assim, curiosamente, estamos perante um produto que tem a sua génese na Net (quer as palavras escritas, quer as palavras ditas) e dela salta directamente para o papel. Esta particularidade, alias, é ilustrada de forma divertida pela foto da contracapa do livro, onde se vê o autor sentado frente a uma máquina de escrever, dactilografando os seus poemas numa enorme folha de papel que vai directamente para o microfone que o declamador empunha. Poderá assim dizer-se que é um livro para “oulêr”, isto é ouvir e ler ao mesmo tempo, saboreando a espessura, a profundidade e o sentido da escrita do autor acrescidos da modulação e sentimento do intérprete. A juntar a tudo isto há ainda a circunstância de o conjunto da obra, livro e CD, se destinar a ser vendida, essencialmente, na Internet, como convém a nativos da blogosfera. E o meu papel no meio de tudo isto? Eu sou apenas um velhote deslumbrado com estas maravilhas informáticas, que também tem dois blogues, não de poesia mas de prosa, e se entretém a navegar por muitos dos milhares de blogues, sobretudo os de poesia, que, como cogumelos, dia a dia se multiplicam na Net, e descobre, maravilhado, que a nossa fama de país de poetas não é um mito e que, cada vez mais, os jovens aproveitam este extraordinário veículo de comunicação para darem a conhecer a sua verve poética, os seus conceitos estéticos, a sua maneira de ver o mundo e partilharem com outros as suas experiências e anseios. Claro que, sendo assim, também eu estava fatalmente destinado a encontrar o blogue e os poemas do Rui Diniz, sobretudo depois do meu amigo Luís Gaspar o ter divulgado. Foi a partir daí, muito recentemente portanto, que conheci o Rui Diniz e ficámos amigos e ele me pediu para dizer uma palavras de apresentação do seu livro e do autor. Dos autores, aliás, visto tratar-se de duas diferentes autorias criativas: o texto, por um lado e a sua interpretação fónica e dramática por outro.

O Autor: Rui Diniz é um dos muitos jovens do nosso país tocados pelo dom da inspiração poética, que cultiva com fina sensibilidade, e é ao mesmo tempo possuidor de uma dinâmica que lhe permite passar do idealizar ao fazer, com uma determinação notável.
A prova é a publicação deste livro, pouco mais de dois meses passados desde o dia em que pôs na ideia edita-lo. Tem apenas 27 anos e com esta idade não pode, óbviamente apresentar um longo curriculum. Direi apenas que nasceu e vive em Almada, frequentou a Universidade Autónoma de Lisboa, é habilitado com o Certificate of Proficiency in English da Cambridge School, e tem um curso de informática que lhe permite exercer a profissão de Assistente Técnico de Internet na Novis. Teve ainda, até há pouco tempo, uma banda que entretanto acabou, cantou em bares durante uns meses, escrevendo algumas das canções que interpretava, uma curta participação como locutor e colaborador na Rádio Voz de Almada e, last but not the least, escreveu os poemas que neste livro publica e parece ter encontrado na poesia a sua grande vocação.

Quanto ao intérprete e produtor do CD, Luís Gaspar: Nasceu, como ele diz, a ouvir o apito dos comboios na estação de Campolide, no ano em que começou a guerra civil de Espanha (quem souber que faça as contas), estudou na Escola Veiga Beirão e no Instituto Comercial. De 1954 a 1957 fez teatro radiofónico na Emissora Nacional, ao lado de grandes actores, como Álvaro Benamor, tendo ganho dois prémios “Revelação do Ano” e “Melhor Actor Jovem”; fez locução, representação e realização no Rádio Club Português e Rádio Renascença, numa época em que a ràdio era a rainha do entretenimento no nosso país; entra depois no mundo da publicidade, quer como empresário quer como locutor; experimenta também o cinema, realizando vários documentários, alguns de cariz político no pós 25 de Abril; e desde 1990 que assumiu por inteiro a profissão de locutor de publicidade. O timbre e a versatilidade das suas capacidades vocais, tornaram-no justamente conhecido nos meios publicitários, chegando a ser conhecido como “a Voz”. A par da sua actividade profissional criou em 1997 o site
TRUCA - um dos sites não comerciais de maior visibilidade do nosso país e posteriormente, - por pura diversão e apego à difusão da nossa cultura literária – o audioblogue Estúdio Raposa com, actualmente, dois programas semanais, Palavras de Ouro e Lugar aos Outros, já atrás mencionado.

Quanto ao livro, tratando-se da primeira obra impressa de um jovem autor, com um produção naturalmente não muito vasta ainda, constitui óbviamente volume de formato reduzido mas com uma apresentação gráfica notável, sobretudo tendo em conta que se trata de uma edição de autor, por si inteiramente concebida e custeada. Compõe-se de 30 poemas divididos em dois capítulos: “Pedaços” e “Amor Ego” e de duas história em prosa.
Em “ Pedaços”, espalham-se, diz o autor, uma migalhas de Luz no seio de um ego forte; em “Amor-Ego” explora a sua própria história de sentimentos e aventuras emocionais que o purificaram e espera, através da partilha dessa viagem interior, tornar mais viva e transparente a consciência de quem o lê.
Os dois contos finais, espelham em prosa, poética aliás, o mesmo mundo interior do Rui Diniz, um mundo onde fantasia e realidade se misturam de tal forma que se torna impossível dizer onde uma termina e a outra começa. Como a vida, aliás. Vão gostar de viajar neste mundo interior do autor, que nesta pequena obra deixa vislumbrar potencialidades literárias que o tempo se encarregará de confirmar, espero.»

O meu humilde agradecimento a todos os que trabalharam, contribuiram e apoiaram este projecto que, deve referir-se, destina-se a tentar dinamizar a leitura e declamação em Portugal nos pequenos meios onde provavelmente circulará.

Quem compreende a lingua inglesa, pode tambem ler a menção a esta obra no blog do fundador da Magnatune clicando aqui.

Rui Diniz

02 agosto, 2006

Serpente

Se o que sensoriamos
é apenas um infinitésimo do infinito,
como podemos afirmar ser verdadeiros?

Não! Somos é estrangeiros em todo o lado,
escamas de uma serpente
que morde o próprio rabo!

Não morre esta serpente,
gira eternamente, que nem um carrocel
e nós com ela, crianças,
colados à sua pele...

Surgirá o dia em que,
continuando a serpente girando,
me solto dessa pele ilusória por tanto tentar
e de fora,
certificado que a serpente não existe,
afagarei todas as escamas,
iluminarei a penumbra
que as faz permanecer
neste destino
tão triste...


Rui Diniz

Encontro

Encontramo-nos pelo Caminho.
Sem chá, sem cerimónia,
sem condicionantes ou ilusões.
Apareceremos na memória de um evento
que nunca terá lugar,
sem momento para acontecer,
nem tempo para acabar.

A sala estará vazia.
Não será rica nem pobre,
feita apenas do Ouro Nobre
cujo brilho não vicia...

Até já!
A eternidade desta espera
cabe toda
num segundo...


Rui Diniz